17 de nov. de 2009

A batalha pela xícara

O cheiro do café faz parte das entranhas de Santos e naturalizamos o movimento das sacas de juta embarcadas com destino ao exterior. Elas produziram a riqueza da cidade no passado. Mas não está longe o momento em que veremos navios despejando café importado no cais. Será um marco notável das mudanças provocadas pelo crescimento do comércio global. E essa importação de café permitirá que o Brasil exporte muito mais... café. Paradoxo da globalização? Parece, mas não é.


O que acontece é que não estamos mais sozinhos no mundo do café, embora ainda sejamos o maior produtor, respondendo por cerca de 30% do mercado mundial. Os cafés especiais fazem enorme sucesso e estão mudando a indústria no topo da cadeia econômica. Provenientes da Indonésia, de Angola, Jamaica, Guatemala, Colômbia, passaram a ser um item da mesa dos melhores gourmets.

A diversificação das características do café disponível e a crescente competição pelo que vai na xícara tornam o café torrado e moído uma nova arena de combate. As empresas importadoras de outros países, por exemplo, têm reinvidicado de seus fornecedores brasileiros blends (misturas) que não são possíveis de serem produzidas sem a importação de café de terceiros. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse dias atrás que a importação para produzir blends poderá quintuplicar nossas exportações de grãos torrados ao alcançar mercados consumidores que hoje não conseguimos.

As empresas que operam com café torrado e moído pleiteiam a liberação da importação faz tempo, e explicam através da Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) que boas oportunidades de ampliação de vendas têm esbarrado na exigência dos compradores de que nosso café seja misturado com o de outras origens. O diretor executivo da ABIC, Nathan Herszkowicz, diz que a importação de 200 mil sacas ao ano apenas seria o suficiente para elevar de US$ 38 milhões para mais de US$ 150 milhões ao ano o faturamento com as exportações do produto acabado, que vale muito mais que o café verde ou em grãos torrados.

Já existem programas governamentais para a promoção dos “Cafés do Brasil” e de incentivo à produção de cafés superiores e gourmets, o novo filão do mercado internacional, e a importação de tipos especiais, não produzidos aqui, seria uma natural decorrência desse esforço, conforme a indústria. Os produtores empenhados em produzir café diferenciado torcem o nariz, mas reconhecem que no médio e longo prazos todos ganhariam com a ocupação desses novos espaços.

Outros produtores mundiais pressionam por uma abertura do mercado brasileiro, já que se trata do segundo país que mais bebe café, atrás apenas dos Estados Unidos. No início do mês, por exemplo, uma delegação do Ministério da Agricultura estava no Vietnã negociando a abertura do mercado de carnes do país para o Brasil. Ouviram, de volta, que a contrapartida seria a liberação da importação de café no Brasil. O Vietnã é atualmente o segundo produtor do mundo e o primeiro da variedade robusta, e segundo exportador global.

Nessa seara do café na mesa, que é a do café torrado e moído, o Brasil vem perdendo espaço no mercado, segundo os especialistas. A queda registrada nos três trimestres encerrados em setembro, em relação ao mesmo período do ano passado, foi de 22%, passando o faturamento de US$ 32 milhões em 2008 para US$ 24 milhões em 2009. Muitos botam na conta da crise econômica global. Pode ser. Mas o café em grãos, apesar das cotações, segue vendendo mais que em 2008.


Fonte: Jornal da Orla por Mauri Alexandrino

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